Esta é uma reportagem que saiu domingo passado no jornal Diário Pernambucano.
Ela fala sobre parto humanizado e está muitissimo bem escrita, é comprida, mas vale muito a pena ler.
No final da reportagem tem vários links interessantes a respeito de parto e amamentação.
Ter um bebê. Gerar uma vida. Trazer um filho ao mundo. Mais do que isso: uma enorme e única experiência. Bem além de simplesmente gestar e parir, a maternidade ganha um significado diferente para mulheres que buscam viver esse momento a fundo. Sem temer uma das sensações mais mitificadas da humanidade – a dor do parto – elas querem vivenciar o nascimento dos filhos de uma forma natural, sem intervenções, procedimentos, cirurgias, ao contrário da voz corrente que instituiu a cesariana como regra para os nascimentos no Brasil. Elas querem ser donas do próprio parto – um direito que, embora elementar à primeira vista, é freqüentemente desrespeitado pelo profissionais de saúde e contestado por familiares. Mas com uma coragem de mãe que defende a cria, elas vão à luta, peitam, contestam o sistema, se ajudam. E em um trabalho de parto simbólico, mostram o que desde sempre a humanidade soube: nascer é o ato mais natural do mundo.
EXPEDIENTE
Textos: Raquel Lima e Juliana Aragão raquelareia@gmail.com
Edição de textos: Juliana Aragão
Fotos: Annaclarice Almeida/DP/D.A Press
Edição de vídeos: Bosco
Layout: Arte de Bosco sobre foto de Benjamin Earwicker/Divulgação
Humanamente mães
As donas do parto
Mulheres adeptas do parto humanizado defendem o direito da mulher de escolher como parir
Encarar uma briga não é fácil. Pois imagine o que é enfrentar uma luta em que em um dos lados estão o senso comum, os profissionais de saúde e as estatísticas. Do outro, uma gestante, disposta ao embate em nome de um parto normal. Pois foi o que fizeram a dentista Patrícia Carvalho Arouca e a médica da família Viviane Xavier. Ambas temiam aumentar a estatística da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), responsável por regular as atividades das operadoras dos planos particulares, cujos levantamentos apontam para a ocorrência de cesarianas em nada menos que 85% dos partos feitos em 2008 nos hospitais privados do Brasil.
80% mulheres preferem o parto normal
Nos hospitais particulares, o índice de cesarianas é de 85%
Elas estavam do outro lado. Engrossavam as estatísticas de uma pesquisa do British Medical Journal realizada em Porto Alegre, Belo Horizonte, Natal e São Paulo cujas conclusões apontam que 80% das gestantes prefeririam parir suas crianças sem intervenções cirúrgicas. E assim como as autoridades de saúde que confrontaram os dois resultados, elas também acharam a disparidade grande demais.
Com informação em mãos, a duas transformaram medos e mitos em certezas e se apropriaram dos seus respectivos partos. Após consultas de rotina e de encontrar uma equipe disposta a atender às suas expectativas, Patrícia – 35 anos e mãe de Yago, 5 – deu à luz Nina, no conforto de sua própria casa, no quarto andar de um edifício no Derby, acompanhada de uma doula e de uma parteira. “Não queria repetir o trauma do meu primeiro parto, cheio de intervenções desnecessárias que fizeram com que meu filho tivesse de ser reanimado”, relembra.
A taxa de cesarianas realizadas no Brasil é cinco vezes maior do que o admitido pela OMS
Miguel, de 11 meses, também veio ao mundo na casa onde seus pais moravam, em Piedade. Sua mãe, Viviane Xavier, partejou por cinco horas, com ajuda de uma obstetra e uma doula. “Não gosto dos procedimentos padrões dos hospitais porque sei que eles não são necessários para todos”, justifica Viviane, que há anos atua na área de saúde pública. “Depois de muita pesquisa, vi que a diferença entre parir em casa e em uma maternidade de baixo risco é somente a presença do pediatra”.
Mas o que leva uma mulher a, diante da opção de um parto sem dor, cercado de cuidados médicos e da vigilância de pediatras, enfermeiros e auxiliares optarem por um parto nos moldes dos que aconteciam na época das suas avós? O elementar direito de escolher. Não só o tipo de parto ao qual elas querem ser submetidas, mas os vários procedimentos envolvidos no processo, o local, a forma de condução, a postura do profissional médico, os acompanhantes.
Como parir
Confira os tipos de parto
• Parto normal – Nascimento via vaginal, com ou sem intervenções obstétricas
• Parto natural – Via vaginal que acontece de forma fisiológica, ou seja, sem nenhuma intervenção obstétrica
• Parto humanizado – Via vaginal, no qual o protagonismo da mulher é respeitado, ou seja, é a mulher quem toma decisões a respeito do próprio parto. Neste caso, qualquer intervenção do profissional precisa ser comunicada e, na ausência de emergências obstétricas, negociada com a mulher
• Cesariana – Remoção cirúrgica do feto via abdominal
Fonte: Instituto Nômades
Os nascimentos de Nina e Miguel são exemplos do que se convencionou chamar de partos humanizados. O tipo de procedimento que, na ausência de emergências obstétricas que requeiram intervenções, muda o papel da mulher no nascimento do filho: a gestante é preparada para partejar, para lidar com a dor, para escolher posições, para se alimentar, beber líquidos. Exatamente como aconteceu no parto de Gabriel, hoje com 3 anos. Gabriel, não por acaso batizado com nome de anjo, veio ao mundo sem nenhuma intervenção, num parto tranqüilo, na água, conduzido do jeitinho como planejou sua mãe, dentro de um quarto de hospital no Recife.
A mãe dele, Nélia de Paula, de 37 anos, diz ter sido transformada pelo impacto da experiência. Tanto que seu envolvimento com o estímulo ao parto normal a levou a comprar a briga de outras mulheres que buscam um parto humanizado. Hoje, além de coordenar o Ishtar (grupo de apoio à humanização do narcimento que nasceu em Pernambuco e fertilizou o Brasil) ela é doula autônoma (mulher capacitada a dar conforto físico e emocional às parturientes) e usa sua experiência e estudos para apoiar outras mulheres.
Uma questão de cultura

Foto: Inês Campelo/DP/D.A Press
Obstetra, Leila Katz (mãe de Sara, 11, Maria, 8, e Nani, que tem menos de um mês de nascida), está entre as mais respeitadas militantes do parto humanizado do país. Coordenadora tanto da UTI Pediátrica quanto do Departamento de Parto Humanizado do Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (Imip), ela é categórica em afirmar que o modelo obstétrico do Brasil não favorece nem econômica nem culturalmente o partejar. “O parto normal tem duração imprevisível e uma indústria hospitalar que trata nascimentos como uma linha de montagem não é producente. Portanto, até mesmo para achar vagas para partos normais é complicado porque os apartamentos ficam reservados para cesarianas”, critica.
Nadando contra a maré de cesarianas e de médicos que por comodidade e praticidade preferem indicar o parto cirúrgico como regra às gestantes – postura que contraria as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), Leila acabou se envolvendo em uma polêmica por conta do parto de Gabriel. O nascimento, ocorrido no próprio apartamento do hospital e dentro de uma piscina, tudo como solicitado por Nélia, chamou a atenção de profissionais de saúde da unidade e rendeu uma polêmica que acabou no Conselho Regional de Medicina (Cremepe). Depois de submetido por iniciativa da própria Leila ao órgão, o detalhamento do procedimento foi integralmente aprovado por seguir todas as recomendações da OMS.
Outro ferrenho defensor do parto normal, o médico Jorge Francisco Kuhn, obstetra e professor assistente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), emenda a opinião de Leila. Para ele, o médico não é o mais indicado para o acompanhamento de um parto de evolução normal. “O obstetra é formado mais para agir do que para observar e a formação da parteira ou da enfermeira é mais no sentido de cuidar do que curar. Portanto, se admitirmos que 90% dos partos têm evolução normal, o profissional tem de ser cuidador e não curador. Só nos 10% em que existem riscos, há necessidade de intervenções como cesarianas ou fórceps”, aponta.
“As campanhas não são suficientes. As gestantes precisam ser melhor informadas pelos profissionais de saúde. E os médicos precisam ser melhor formados para encarar o parto como processo normal e não cheio de riscos. NA Europa, no Japão, por exemplo, quem dá assistência ao parto é o enfermeiro obstetra ou parteira”, atesta Kuhn.
O enaltecimento do parto tecnológico, a cultura de marginalização das parteiras, fortalecida pelas desvantagens financeiras do nascimento por via vaginal para hospitais e planos privados são apontados como especialistas como fatores prejudiciais às campanhas Ministério da Saúde em prol do parto normal. Alheios a comerciais reproduzidos anualmente em tevês, rádios, e jornais (este ano, estampados com a atriz Fernanda Lima, que deu à luz seus gêmeos por via vaginal), os índices brasileiros continuam a crescer.
Se em 2008, 85% dos nascimentos em hospitais particulares foram cesarianas, há cinco anos este número era de 79,2%. Índices mais de cinco vezes superiores ao recomendado pela OMS, que admite como aceitável uma percentagem de 15% de cesáreas entre todos os partos realizados em um país. A Holanda, onde a tradição de parir em casa é comum, consegue ficar abaixo da taxa e registra 14% de partos cirúrgicos anuais. Na Inglaterra, o índice fica em 19%, enquanto os Estados Unidos têm 20,6% de nascimentos por cesariana. Na Espanha, são 22%.
Protagonismo é responsabilidade
Parir sempre envolve riscos, maiores ou menores. Então, se é direito da mulher escolher o tipo de parto que quer ter, a cesariana pode ser incluída como opção? Mais tecnologia torna o parto mais fácil? A polêmica envolve também o nascimento domiciliar: como garantir socorro em casos de emergência? Veja os riscos de cada procedimento.
Cesariana
O parto cesáreo, seja ele eletivo ou de emergência, é uma cirurgia abdominal de grande porte. OInquérito Confidencial do Reino Unido sobre Morte Materna (UK Confidential Enquiries into Maternal Deaths) diz que uma cesárea eletiva sem característica de emergência apresentou um risco 2,84 vezes maior de morte materna do que um parto vaginal nas mesmas condições. Nestas contas, acidentes anestésicos, danos aos vasos sanguíneos, prolongamento acidental da incisão uterina, danos à bexiga ou a outros órgãos, infecções. Além disso, o parto cirúrgico, quando realizado de forma eletiva, há riscos de prematuridade do bebê, já que os erros relativos ao tempo de gestação são comuns.
Parto normal tradicional
Em um parto normal tradicional de baixo risco, a episiotomia (incisão efetuada na região do períneo) é um risco porque pode causar infecções e problemas de cicatrização. Os chamados indutores de parto aumentam muito a força das contrações e, portanto, aumentam o risco de rupturas uterinas.
Parto normal domiciliar
Em caso de gestante de baixo risco, o parto normal domiciliar apresenta os mesmos riscos de um hospitalar. Gestantes com diagnóstico de hipertensão ou diabetes gestacional durante o pré-natal são candidatas ao parto normal hospitalar humanizado. Parteiras e obstetras humanizados indicam ainda que o parto seja realizado próximo a hospitais.
Escolha é lei
A doula Dan Gayoso, coordenadora do projeto Boa Hora e do Instituto Nômades – ambos entidades de estímulo ao parto normal -, e mãe de três filhas (uma por cesariana e duas por partos domiciliares), além de um bebê que ainda está sendo gerado, defende que a mulher precisa encarar a escolha do seu tipo de parto como um direito. E que a equipe médica, por sua vez, tem que respeitar as escolhas da gestante. Aliás, definir se quer estar acompanhada e por quem é outra conquista. O direito a um acompanhante está previsto na Lei 11.108, de 7 de abril de 2005, que assegura a presença de companhia para a gestante durante e após o nascimento, em todas as unidades do Sistema Único de Saúde.
Em se tratando de hospitais particulares, o acompanhamento é garantido por uma resolução da Agência Nacional de Vigilâcia Sanitária (Anvisa). No Regulamento Técnico para Funcionamento dos Serviços de Atenção Obstétrica e Neonatal, o item 9.1 prevê que “o serviço deve permitir a presença de acompanhante de livre escolha da mulher no acolhimento, trabalho de parto, parto e pós-parto imediato”.
Outra questão legal importante é o procedimento para registro dos bebês nascidos em casa. Os pais devem comparecer ao cartório de registro civil até 30 dias após o nascimento. Além de duas testemunhas, precisam estar munidos de comprovante de residência e documentos pessoais (como RG, CPF e certidão de casamento, se houver). Também é importante carregar papéis comprobatórios da gravidez (como cartão pré-natal ou exames de sangue) e a DNV (declaração de nascido vivo) que pode ser preenchida pelo obstetra ou parteira. O casal deve providenciar o reconhecimento da firma do emitente antes de ir ao cartório
A OMS recomenda
Confira o que preconiza a Organização Mundial de Saúde com relação ao parto:
• A elaboração de um plano individual determinando onde e por quem o parto será realizado, feito em conjunto com a mulher durante a gestação, e comunicado a seu marido/ companheiro e, se aplicável, a sua família
• Avaliar os fatores de risco da gravidez durante o cuidado pré-natal, reavaliado a cada contato com o sistema de saúde e no momento do primeiro contato com o prestador de serviços durante o trabalho de parto e parto
• Monitorar o bem-estar físico e emocional da mulher ao longo do trabalho de parto e parto, assim como ao término do processo do nascimento
• Oferecer líquidos por via oral durante o trabalho de parto e parto
• Respeitar a escolha da mãe sobre o local do parto, após ter recebido informações
• Fornecimento de assistência obstétrica no nível mais periférico onde o parto for viável e seguro e onde a mulher se sentir segura e confiante
• Respeitar a escolha da mulher quanto ao acompanhante durante o trabalho de parto e parto
• Não utilizar métodos invasivos nem métodos farmacológicos para alívio da dor durante o trabalho de parto e parto e sim métodos como massagem e técnicas de relaxamento
• Liberdade de posição e movimento durante o trabalho do parto
• Estímulo a posições não supinas (deitadas) durante o trabalho de parto e parto
• Realizar precocemente contato pele a pele, entre mãe e filho, dando apoio ao início da amamentação na primeira hora do pós-parto, conforme diretrizes da OMS sobre o aleitamento materno
Condutas consideradas pela OMS como claramente prejudiciais ou ineficazes e que deveriam ser eliminadas
• Uso rotineiro de enema (lavagem gástrica)
• Uso rotineiro de raspagem dos pelos púbicos
• Infusão intravenosa rotineira em trabalho de parto
• Uso rotineiro da posição supina (deitada) durante o trabalho de parto
• Exame retal
• Administração de ocotocina (hormônio que estimula as contrações do útero) a qualquer hora antes do parto de tal modo que o efeito delas não possa ser controlado
• Massagens ou distensão do períneo durante o parto.
Lavagem rotineira do útero depois do parto
• Revisão rotineira (exploração manual) do útero depois do parto
Condutas freqüentemente utilizadas de forma inapropriadas
• Método não farmacológico de alívio da dor durante o trabalho de parto, como ervas, imersão em água e estimulação nervosa
• Uso rotineiro de amniotomia precoce (romper a bolsa d’água) durante o início do trabalho de parto
• Pressão no fundo uterino durante o trabalho de parto e parto
• Manobras relacionadas à proteção ao períneo e ao manejo do polo cefálico no momento do parto
• Manipulação ativa do feto no momento de nascimento
• Utilização de ocitocina rotineira, tração controlada do cordão ou combinação de ambas durante a dequitação
• Estimulação do mamilo para aumentar contrações uterina
• Restrição de comida e líquidos durante o trabalho de parto
• Controle da dor através de analgesia peridural
• Monitoramento eletrônico fetal
• Utilização de máscaras e aventais estéreis durante o atendimento ao parto
• Exames vaginais freqüentes e repetidos especialmente por mais de um prestador de serviços
• Transferência rotineira da parturiente para outra sala no início do segundo estágio do trabalho de parto
• Adesão rígida a uma duração estipulada do segundo estágio do trabalho de parto, como, por exemplo, uma hora, se as condições maternas e do feto forem boas e se houver progresso do trabalho de parto
• Parto operatório (cesariana)
• Uso liberal ou rotineiro de episiotomia
Fonte: Organização Mundial da Saúde
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Mãos de fada
Num país conhecido como uma das capitais mundiais da cesariana, parir de forma fisiológica, sem intervenções, ou mesmo ter um parto normal, ainda que com a ajuda de intervenções, virou um desafio. Mas a briga das mulheres pelo direito de escolher seus partos tem seus aliados. Gente que abraçou a causa como missão e decidiu, a partir de experiências próprias ou por puro voluntariado, trabalhar em prol da humanização do nascimento.
Uma das referências mo Brasil quando se fala em defesa do nascimento fisiológico é Suely Carvalho, presidente da ONG Cais do Parto, que faz o acompanhamento e a preparação de casais grávidos que buscam o parto normal e cuja fama já correu mundo. Com 34 anos de estrada e 5.300 partos no currículo, ela é uma das grandes responsáveis pelo resgate de uma tradição milenar que por pouco não se perdeu em meio ao grande mercado de hospitais e indústrias farmacêuticas: a das parteiras tradicionais. Um ofício transmitido como dom entre gerações que, em vez de competir com o avanços das técnicas médicas, só teve a ganhar com o suporte oferecido pela medicina.
Mas se a lógica do nascimento sofreu profundas mudanças desde o século XVII, quando, por influência do médico francês François Mauriceau, se propôs – contrariando toda a história da humanidade – o parto em posição vertical, uma cisão entre médicos e parteiras começou a se delinear. De um lado, a defesa do parto natural, sem intervenções, inteiramente protagonizado pela mulher, a quem é dada plena liberdade. Do outro, profissionais defendendo a medicamentalização e a hospitalização do nascimento.
“As mulheres não reagem a isso porque elas foram desconectadas do saber sobre o seu parto, que passou para as mãos da medicina acadêmica”, defende Suely. “E isso acabou evoluindo para um mercantilismo abusivo, um mercado milionário formado por hospitais cinco estrelas, intervenções, laboratórios, remédios, exames. Uma verdadeira indústria voltada para um evento que deveria ter custo zero”, observa.
Nas mãos de Suely, está a obstinação de resgatar o parto como um evento familiar, de saúde, e não de doença. E é justamente isso que os cerca de 100 casais que procuram o Cais do Parto por ano, seja com o nascimento em casa assistido por parteiras, com o parto hospitalar humanizado ou com informações que embasam decisões a serem tomadas e discutidas com os profissionais médicos responsáveis pelo pré-natal. “Uma de nossas grávidas chegou a passar por nove médicos até conseguir um profissional que respeitasse as suas escolhas”, lembra a parteira
É como uma forma de resistência a um sistema que, via de regra, tem desrespeitado a vontade das mulheres. E não falta gente para apoiar a causa. Pelos levantamentos do Cais do Parto, somente em Pernambuco há 4.500 parteiras ativas. A maioria está no interior, onde a cultura de parir em casa ainda persiste com mais força. Mas engana-se quem pensa que nas cidades grandes a tradição se perdeu. Pelas contas da ONG, há cerca de 30 parteiras atuando somente em Jaboatão, mais oito em Olinda e cerca de 10 no Recife.
As chamadas parteiras urbanas - uma tradição que vem sendo regatada depois de praticamente se perder – são hoje o foco da formação oferecida pelo Cais do Parto. Foram mais de 30 formadas até hoje – incluindo um homem, exceção em meio à absoluta maioria de mulheres que nascem com o que Suely chama de dom. “Mesmo depois da formação, as chamamos aprendizes de parteiras, já que o conhecimento vem com a prática”, diz ela, que herdou as habilidades das avós e bisavós. A filha de Suely, Marcely, também foi presenteada com o dom e hoje também atua como parteira ao lado da mãe. Filha dela e neta de Suely, Dandara, de 17, desde bem pequena já mostrou interesse no ofício e hoje está sendo iniciada no mundo dos partos.
Parto cultural
Pouca coisa mudou desde que, no tempo das nossas avós e bisavós, a primeira providência diante de um trabalho de parto que se anunciava era sair em busca da parteira. A diferença é que, hoje, já não é preciso andar quilômetros, rezando para que a criança não chegasse antes, até a casa da benfazeja. Basta uma ligação pelo celular e lá estão elas, a postos.
Os métodos usados para trazer um bebê ao mundo, porém, não mudaram quase nada. Exceto pela adoção de métodos rigorosos de higiene e pelo desafio de enfrentar o estranhamento de parentes menos familiarizados com o ofício, o papel da parteira é o mesmo desde que o mundo é mundo: esperar serenamente a hora do nascimento, deixando que a natureza aja.
No caso das parteiras tradicionais – diferentes das parteiras obstétricas, formadas em universidades – o parto assume um outro aspecto. Ele é encarado como um ritual de passagem, o momento da entrega de uma nova vida ao mundo. E isso envolve desde rezas milenares, herança das parteiras antigas, até o preparo de chás, a aplicação de massagens. “A parteira profissional é técnica, enquanto nós lidamos com todas essas outras ferramentas. Nosso parto é não está somente na área de saúde, ele é cultural”, define a parteira Suely Carvalho. Embora tradicional, o ofício admite a adoção de práticas reconhecidas como alternativas. “A gente pega a herança e vai atualizando. Antes não havia reiki, florais, cromoterapia, aromaterapia. Por isso nós vamos agregando outros saberes ao momento do parto”, explica.
A ordem, porém, é não interferir, apenas auxiliar. “Nosso papel é transformar o parto em um acontecimento fisiológico, em um rito de passagem tranquilo e saudável que vai trazer uma criança preparada para enfrentar o mundo”, profetiza. Mas embora elas não sejam supervalorizadas, as possibilidades de complicação são sempre levadas em conta. Por isso, Suely recomenda que o parto domiciliar seja realizado nas proximidades de um hospital, como forma de minimizar os riscos de uma intercorrência.
Parto é prazer
Um dos grandes tabus relacionados ao parto normal diz respeito às sensações de prazer relatadas por algumas mulheres no momento da expulsão do bebê. Quem tem experiência na área garante: o parto orgásmico existe. De acordo com a parteira Suely Carvalho, não é raro ver parturientes relatando a experiência.
A explicação, assegura ela, é hormonal. “Quando a mulher tem uma relação tranqüila com a sua sexualidade, consegue trabalhar medos e rever conceitos com relação ao significado do parto, é mais fácil”. A parteira também assegura que a sensação de prazer é mais intensa no orgasmo decorrente de um parto. “Ao contrário do que acontece num orgasmo comum, as contrações são de fora para dentro, muito mais fortes”, defende ela.
O assunto, ainda polêmico, virou tema de um filme exibido e vários festivais internacionais de cinema. Orgasmic birth, dirigido pela ativista em nascimentos naturais norteamericana Debra Pascal-Bonaro confronta o mito do sofrimento do parto mostrando-o, por meio de imagens reais, como parte integrante da sexualidade feminina e como um direito negligenciado.
Para saber mais
http://www.orgasmicbirth.com
Apoio e menos dor
Quando teve sua primeira filha, há quatro anos, a antropóloga Júlia Morim teve o seu primeiro contato com uma doula, termo que, até então, ela nem sequer conhecia. Mais uma no coro das mulheres que procuram por um parto longe do inóspito ambiente de um hospital, Júlia pariu em casa, assistida por uma parteira e com o valioso apoio da doula, como são chamadas as acompanhantes profissionais de parto. O que mal sabia Júlia era que a experiência, além de provocar seu envolvimento com entidades de defesa do parto natural, também a transformaria, pouco depois, em uma doula.
O termo, assim como a atividade, ainda é pouco conhecido no Brasil. Mas a atuação das doulas está longe de ser novidade. Sua origem remete à Grécia antiga, de onde veio a palavra que dá nome à profissão, cujo significado designa as mulheres capacitadas para dar apoio, conforto físico e suporte emocional antes, durante e após o nascimento de seus filhos.
Júlia faz parte de um grupo de profissionais que atua tanto em partos domiciliares quanto em hospitais com um intuito bem definido: o de assegurar o bem estar da mulher no momento do parto. “Estimulamos o chamado parto ativo, que tem a mulher como protagonista”, define. Para tanto, é preciso mais do que boa vontade. “Precisamos entender como funciona o trabalho de parto e atender às vontades das mulheres para deixar tudo o mais tranquilo possível”, explica ela. Por vezes, o trabalho vai além da gestante. “Quando é necessário, também precisamos controlar os parentes”, diz ela, que fez a formação para se tornar doula em São Paulo e hoje faz parte da rede Parto do Princípio – Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa, que congrega ativistas e articula ações na área. Ela também participa do grupo de discussões Parto nosso, onde gestantes, doulas, mães e médicos trocam informações sobre humanização do parto.
Para a coordenadora do Programa Boa Hora do Instituto Nômades e também doula Dan Gayoso, seu principal papel no acompanhamento de uma parturiente é resgatar o protagonismo da mulher. “É ela quem tem que fazer suas escolhas junto com o profissional”, defende. “A doula vai oferecer técnicas de conforto físico, massagens, sugerir posições favoráveis ao parto e atuar de forma a minimizar a necessidade de intervenções”, resume. Tanto que estudos realizados com mulheres acompanhadas por doulas durante o parto mostraram que elas tendem a solicitar muito menos anestesia do que parturientes sem esse tipo de assistência.
Doulas para todas
Apesar de pouco conhecido por mulheres que têm seus filhos em hospitais particulares, o trabalho das doulas já virou rotina em três grandes unidades de saúde do Recife. Nas maternidades Barros Lima, Bandeira Filho, e Arnaldo Marques, é comum escutar parturientes chamando pelas doulas. A cena é resultado de um programa pioneiro implantado pela Prefeitura do Recife em 2002 como parte da política de assistência integral à saúde da mulher a partir de diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Saúde. “O parto era domiciliar. Depois ele chega ao hospital e se torna mais hostil, com a adoção de procedimentos que não são agradáveis para a mulher”, defende a gerente de atenção à saúde da mulher da Prefeitura do Recife, Benita Spinelli.
Ela explica que a doção de práticas humanizadas nas maternidades é resultado de um movimento iniciado na década de 1980 que buscava o resgate das origens do parto. “Por conta desse contexto, que levou o Ministério da Saúde a lançar um programa de estímulo ao parto normal, surgiram mudanças nas condutas hospitalares. Entre elas estava a estratégia de tornar o momento do nascimento melhor e mais acolhedor para a mulher”, lembra ela. A implantação das doulas veio como consequência.
Com a hospitalização do parto, pode até parecer estranho que essa espécie de ajudante ainda tenha espaço entre soros, equipamentos e os ambientes impessoais das maternidades. Ledo engano. “O trabalho delas é muito importante porque contribui para mitigar a dor do parto e encoraja para um momento tão importante”, atesta o diretor da Maternidade bandeira Filho, Erick Moreno. Dando assistência às mães no trabalho de parto e estimulando exercícios de respiração e relaxamento, as doulas também têm papel fundamental no estímulo ao parto normal. Na unidade, o índice de partos vaginais é de 71,5%, bem superior aos menos de 20% registrados em maternidades particulares.
Para quem se dedica ao ofício, voluntário, a gratidão de um sorriso e o simples fato de conseguir prestar um valioso auxílio em um momento de emoções extremadas é o maior presente. Assim defende a doula Ariane Pereira. “Venho por amor. Me coloco no lugar delas e sei que o meu trabalho é importante”, reconhece. Técnica de enfermagem, Ariane diz que assume outro papel na maternidade. “Estamos aqui para ajudar, não para interferir”, ressalta ela, que não raro se envolve emocionalmente com as pacientes, muitas delas pobres, desamparadas e despreparadas para enfrentar a maternidade.
A também doula Graça Vasconcelos explica que, durante o trabalho de parto, cria-se um vínculo inexplicável entre a parturiente e a auxiliar. “Não tem como dimensionar. É uma entrega total, tanto da doula quanto da paciente. E somente com carinho e acolhimento conseguimos desmistificar a ideia de que parto é dor”.
Para as pacientes, ter alguém com atenções voltadas para elas durante o partejar é tranquilizador. Grávida de Pedro Vinícius, seu primeiro filho, Ana Beatriz Nepomuceno, 17, suportava a etapa final das contrações amparada por Ariane e Graça. “Não conhecia o trabalho delas, mas estou achando ótimo”, dizia, pouco antes de entrar na sala de parto. Já para Dulcicleide Santana, 28, a ajuda foi decisiva. “Sempre quis ter um parto normal e a ajuda das doulas está ajudando a aliviar as dores”, dizia, enquanto era estimulada a praticar exercícios com uma bola de fisioterapia.
Mitos e fatos
Quando o parto humanizado derruba mitos
Enquanto o bebê se desenvolve na barriga, mitos e medos acompanham gestantes em ruas, lojas, salões de beleza, filas, salas de espera e festas. Quem nunca ouviu histórias de grávidas que sofreram por horas a fio em trabalhos de parto difíceis ou sentenças como mulher com quadril estreito não consegue parir? Os mitos contaminam até mesmo consultórios e hospitais, onde mães acima do peso, hipertensas ou com diabetes gestacional costumam receber de imediato, eliminando qualquer possibilidade de estudo mais aprofundado do caso, a sentença de uma cesariana.
Neste Brasil que, segundo a Agência Nacional de Saúde (ANS), tem um dos índices de cesarianas mais altos do mundo, perdendo apenas para países como o Chile, tais diagnósticos são usados para, muitas vezes, justificar as chamadas cesáreas desnecessárias. A obstetra Leila Katz defende que obesidade, hipertensão, diabetes e gravidez gemelar realmente indicam cuidados especiais durante a gestação e o parto, mas não são condições que por si só justifiquem um parto cirúrgico.
Exemplo é a jornalista Mariana Mesquita, 36, que deu à luz Antônio, 2, de parto humanizado (parte na água e parte de cócoras), sem anestesia ou episiotomia, no apartamento do Hospital De Ávila, num parto que seguiu à risca as recomendações da OMS. “Foi uma vitória ver que meu corpo não era imperfeito e que eu podia parir”, conta. Mariana é um exemplo de parto humanizado em paciente com pressão alta, acima do peso e com grave anemia causada por uma gastroplastia (cirurgia para redução do estômago).
Mariana Mesquita lembra que passou por pelo menos três ginecologistas antes de chegar ao parto humanizado. De acordo com a jornalista, em todos os consultórios ela ouviu sobre como sua gravidez era perigosa e como teria de passar pela cesárea. Mas foi no sétimo mês de gestação, quando ouviu da sua então médica que uma cesariana seria marcada para retirada de Antônio em uma semana, que Mariana procurou Leila, por indicação de gestantes de um grupo de humanização do parto.
“Era uma paciente que não tinha indicação de parto domiciliar porque precisava de cuidados especiais, mas que certamente não deveria ser encaminhada a uma cesariana, procedimento que comprovadamente faria com que ela sangrasse mais e que poderia causar mais complicações no resguardo da cirurgia”, resume a médica responsável pelo parto de Antônio, também assistido pela obstetra Melânia Amorim.
O parto de Nani, filha da própria Leila Katz, confronta pelo menos outros três mitos que costumeiramente são alegados pelos médicos para suas pacientes: o de que mulher acima de 35 anos tem dificuldades de parir; o de que após duas cesarianas, um parto normal é praticamente impossível, e o de que parto demorado oferece riscos ao bebê. Aos 36 anos, Leila Katz pariu Nani sentada em uma cadeira especial, no Hospital Santa Joana. “Para mim também foi uma superação”, desabafa.
“No meu primeiro parto, já era residente de obstetrícia e, por inexperiência, passei por uma cesárea desnecessária. No segundo, já realizava parto de cócoras com minhas pacientes, mas tive que passar por outra cesárea; necessária, mas não menos frustrante”. Quando ficou grávida pela terceira vez, Leila já era uma das mais respeitadas militantes do parto humanizado do país, e considerando o risco de uma terceira cesariana, usou sua experiência para ter um parto vaginal, difícil, que durou 31h.
A obstetra Ana Cristina Duarte, mãe de Júlia (por cesárea desnecessária) e Henrique (por parto normal hospitalar), é doula, educadora perinatal, e assina um dos artigos online no site do Parto do Princípio, abordando justamente os mitos do nascimento. Sobre os riscos que o bebê corre no partejar prolongado, a especialista diz que “um parto nunca é rápido ou demorado demais enquanto mãe e bebê estiverem bem, com boas condições vitais, o que é verificado durante o trabalho de parto”. Segundo ela, um parto pode demorar de uma hora a três dias, desde que haja um bom atendimento da equipe de saúde.
Sobre um dos mitos populares mais repetidos, o de que mulher com quadril estreito não consegue parir, ela escreve: “Não mais que 5% dos partos estariam sujeitos à condição de um bebê grande demais para a bacia da mulher ou uma posição que não permite seu encaixe”, contabiliza. De acordo com a médica, é tecnicamente impossível saber se o bebê não vai passar enquanto o trabalho de parto não acontecer, a dilatação chegar ao máximo e o bebê não se encaixar. “Além disso, o importante é não se deixar impressionar por pessimistas de plantão”, finaliza.
Trocando mitos por fatos
Saiba mais sobre alguns fatos ou diagnósticos que comumente levam a cesáreas desnecessárias
Mito: Mãe de gêmeos não pode ter parto normal
Fato: Dependendo da posição dos irmãos. Se os dois bebês estiverem com as cabeças para baixo, o parto normal é uma indicação.
Mito: Diabetes gestacional
Fato: Diabetes não é indicação de cesariana. O parto normal apresenta menor risco a esta gestante por diminuir a intervenção médica e os riscos de infecção.
Mito: Sem dilatação
Fato: Não existe falta de dilatação em mulheres normais, a não ser que o médico não espere o tempo suficiente. A dilatação do colo do útero é um processo passivo que só acontece com as contrações uterinas.
Mito: Hipertensão materna
Fato: Estudos comprovam que o parto normal é a melhor escolha, a não ser que o bebê esteja prematuro ou que haja uma crise aguda.
Mito: Parto seco. Um parto depois que a bolsa rompeu seria uma tortura de tão doloroso.
Fato: Depois que a bolsa rompe, o líquido amniótico continua a ser produzido e o colo do útero produz muco continuamente, que serve como um lubrificante natural para o parto.
Mito: Mãe obesa
Fato: O parto normal é a melhor indicação para a mãe obesa porque apresenta menor intervenção e, portanto, menos riscos de infecção
Mito: Parto Demorado
Fato: Um parto pode demorar contanto que haja um bom monitoramento dos batimentos cardíacos do bebê. Enquanto eles estiverem em um padrão tranquilizador, então, o parto está no tempo certo para aquela mulher.
Mito: Bebê passou da hora
Fato: Os bebês costumam nascer entre 37 e 42 semanas. Depois deste tempo, se forem feitos todos os exames que comprovem o bem estar fetal, não há motivos para preocupação. O importante é o bom pré-natal.
Mito: Cordão Enrolado
Fato: O cordão umbilical é preenchido por uma gelatina elástica, que dá a ele a capacidade de se adaptar a diferentes formas. O oxigênio vem para o bebê através do cordão direto para a corrente sanguínea. Assim, o bebê não pode sufocar.
Mito: Cesáreas prévias
Fato: Se a cesariana anterior tiver sido segmentar, que é o método usado hoje em dia na remoção cirúrgica dos bebês, o parto normal também é indicado. As chances são de 70%
Mito: Ausência de trabalho de parto
Fato: Toda mulher entra em trabalho de parto, mais cedo ou mais tarde, a não ser que a operem antes disso.
Mito: Placenta envelhecida
Fato: A qualidade da placenta isoladamente não tem qualquer significado. Ela só tem significado em conjunto com outros diagnósticos, como a ausência de crescimento do bebê, por exemplo. Só pode ser considerado anormal uma placenta com envelhecimento precoce, como antes de 30 semanas de gravidez.
Fontes: obstetra Leila Katz e obstetriz Ana Cristina Duarte (Parto do Princípio)
Como eu quero
Imagine fazer uma viagem longa sem um roteiro pré-definido. Chances eventuais de se perder no caminho aumentam consideravelmente. Essa idéia vale também para o processo de parto, cujo planejamento, apontam a Organização Mundial de Saúde (OMS) e mães que já passaram pela experiência, vai além de uma necessidade – é um direito da mulher na hora de parir. É no documento, chamado de plano de parto – que deve ser elaborado com antecedência e com máximo detalhamento e levado ao conhecimento prévio da equipe médica ou da parteira – que a gestante declara suas preferências, como a posição na qual ela deseja parir ou o momento de cortar o cordão umbilical, e escolhe os procedimentos aos quais deseja se submeter, a exemplo da anestesia ou episiotomia. Os primeiros cuidados com o bebê, como o pedido para que ele seja colocado ao seio logo após o nascimento, também entram nesse planejamento prévio. Mas a necessidade de elaboração de um plano de parto não se limita às mulheres que pretendem ter seus filhos por parto normal. O documento é válido também para aquelas que, por opção ou necessidade, vão se submeter a uma cesariana. Veja a seguir como algumas mulheres escolheram ter seus partos.
Parto humanizado domiciliar
Pode-se dizer que Dan Gayoso, de 39 anos, vive de nascimentos. Mas engana-se quem pensa que ela é obstetra. Doula autônoma e coordenadora do Programa Boa Hora e do Instituto Nômades, Gayoso é mãe de Dara, de 9 anos, Luísa, 6, e Flora, 5, e madrasta de Matheus, 9, e Mariana, 5. A pernambucana ainda tem braços para mais um bebê, que se anuncia para breve e cujo sexo ela preferiu não saber.
Como uma autêntica militante do direito de parir, Dan já tem o plano de parto totalmente estipulado: quer ter o filho em sua casa. Sozinha. A obstetra ficará avisada quando o trabalho de parto começar, mas só deve entrar em cena (uma bonita casa em Aldeia), depois que o mais novo membro da família estiver nos braços dos pais.
Após parir três filhos, doular no nascimento de mais de 50 crianças e dos seis anos de experiência como doula – ela se formou no primeiro curso da Associação Nacional de Doulas (ANDO), no Rio de Janeiro -, Dan está segura na decisão de parir sozinha. O parto de Flora, sua terceira menina, já foi o que as doulas chamam de parto fisiológico. Ou seja, sem intervenções: durou 1h30, nos quais Dan teve a ajuda de uma parteira por apenas cinco minutos.
Já Luísa veio ao mundo em casa, na piscina de parto, com algumas intervenções. Nada como a primogênita da família, Dara, que nasceu do que ela chama de cesárea desnecessária, provocada pelo nervosismo da mãe de primeira viagem. Depois da experiência de ter o parto hospitalar que queria frustrado, Gayoso começou a estudar e militar pela humanização dos nascimentos de outros bebês.
Parto humanizado hospitalar
Michelle Pazin tinha um plano de parto cuidadosamente elaborado no decorrer da sua gestação. A gaúcha de 31 anos não planejava correr para o hospital nos primeiros sinais de trabalho de parto. A estratégia da mestranda em biologia era partejar em casa, em Pau Amarelo, e só seguir para o hospital nos momentos finais do nascimento da sua primeira filha.
O documento previa que a obstetra Fátima São Marcos e a doula Dan Gayoso – parceiras do processo – seriam avisadas logo, mas monitorariam o nascimento de Luna a distância. Pelo menos até a chegada no hospital. Os pais esperavam que a nova integrante da família nascesse sem nenhuma intervenção, dentro de uma piscina de parto, no quarto do hospital. E assim foi feito. Luna veio ao mundo por parto normal no sábado, 7 de novembro, em um apartamento do Hospital Português, no Recife. Nenhuma intervenção foi necessária. Após pouco mais de 24 horas de trabalho de parto, a menina nasceu pesando 2,9 kg e medindo 49 cm. Foi recebida pelo pai, pelas avós materna, Maribel, e paterna, Valdete, além da doula e da obstetra. “Foi exatamente como pensei, só que mais rápido”, resume Michelle, ainda no hospital.
A busca do casal Pazin pela melhor maneira de receber Luna começou no Amazonas, onde Victor trabalhava. De uma pequena cidade amazonense, próxima a uma aldeia, onde Michelle assistiu a muitos partos de cócoras das índias, até chegar em Pernambuco, a internet foi uma aliada. Mãe e pai pesquisaram muito até encontrarem Dan Gayoso, que lhe indicou uma obstetra e ajudou no caminho do parto humanizado.
Parto cesárea
A advogada Eleica de Andrade, 32 anos, já decidiu que quer parir a pequena Isabela, que ainda está sendo gerada, no hospital, provavelmente de cesariana. O plano de parto de Eleica é baseado nas experiências que já teve com os nascimentos de Matheus, de 13 anos, e Melina, 10. Os dois nasceram com intervenção médica e, para a mãe, de maneira segura e sem desconfortos no período de recuperação.
A estratégia para a chegada de Matheus era um parto normal no hospital. Mas, após complicações, o pequeno acabou nascendo por uma cesárea. Segundo Eleica, foi neste nascimento do primogênito que os medos que ela tinha em relação à cirurgia ficaram para trás.
Tanto que na gestação de Melina, a cesariana foi a primeira opção. A advogada lembra que nem pensou em ter um parto vaginal. Com Isabela, Eleica se diz aberta ao parto normal, mas é categórica ao dizer que não enfrentaria o procedimento sem analgesia. Assim, defende, será mais confortável para ela e para o bebê.
Independentemente do local ou do tipo de parto que terá, Eleica acredita que a preparação é muito importante. Praticante de Yoga Integral há pelo menos cinco anos, a advogada frequenta aulas para gestantes e adotou hábitos ayurvédicos (da medicina milenar da Índia) desde que recebeu o resultado positivo do teste de gravidez. E, com amor, espera a chegada da caçula da família.
A genética contra-ataca: parir é anti-natural
Luiz Maurício da Silva é um respeitado geneticista: mestre em genética e biologia molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1989) e doutor em ciências biológicas pela Universidade de São Paulo (1999), além de obstetra, o professor integra o Laboratório de Genética Molecular Humana da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Experiente em genética com ênfase na saúde pública, Luiz Maurício acredita, embora sem embasamento em pesquisas, que a mulher perdeu a capacidade de parir por andar ereta e defende que o nascimento vaginal – humanizado ou não – pode causar danos ao casamento e às próximas gerações. Confira a entrevista:
O senhor defende que as mulheres não têm condições de parir naturalmente, por via vaginal. Como o senhor chegou a esta opinião?
Para não falarmos uma história grande da evolução, consideremos a situação a partir dos primatas, de aproximadamente um milhão de anos para cá, quando os humanóides já estavam estabelecidos. Muitas mulheres deram à luz. Muitas e de muitas espécies consideradas humanas ou humanóides. Mas, se você observar os primatas vai perceber que nenhuma fêmea precisa de ajuda para ter um filho. Todas elas têm seus filhos sozinhas. Seja a fêmea do gorila, do chimpanzé, do orangotango. O único primata que precisa de ajuda é o humano.
Como o senhor fundamentaria esta opinião?
Porque a condição bípede, a condição ereta, sobre dois pés, modificou a estrutura óssea da mulher e modificou de tal maneira o canal do parto que o nascimento, como dizia um professor meu de ginecologia, é a hora em que você está mais próximo de morrer. Porque se passa pelo canal do parto batendo a cabeça em tudo quanto é de ossos, sofrendo pressões, para poder passar pelo canal do parto. A cabeça (do bebê) gira para uma posição, o ombro para outra, depois a cabeça gira para frente, para poder (o bebê) sair. Se qualquer um destes movimentos for impossível, o parto está comprometido; a vida da mãe e do filho também.
Esta é uma linha de pensamento bem polêmica…
Há pouco tempo, não mais de que há 30, 40 anos, fora do eixo dos países desenvolvidos, morria muita mulher de parto. Morrer de parto era uma expressão comum na minha juventude. Até que veio a cesárea e o número de mulheres que morrem de parto, pelo menos em nosso país, é insignificante. Considerando o que foi observado por mim, o que foi ensinado e a história evolutiva da espécie não consigo entender o chamado parto normal como algo bom para o desenvolvimento de um ser humano. Porque esta cabeça vai ficar prejudicada por diversos fenômenos.
E quanto aos riscos da cesariana, alertados por muitas instituições, inclusive o Ministério da Saúde?
O argumento é de que uma cesárea tem a interferência de substâncias especiais, depois a mulher precisa ser tratada, mas, na verdade, o parto normal destrói praticamente a vagina da mulher. Desde o primeiro (filho). A partir daí há uma série de discussões sobre o orgasmo feminino na qual não quero entrar, mas a opinião masculina não é levada em conta. Simplesmente não é. Os problemas de relacionamento são discutidos só do ponto de vista da mulher.
O senhor defende que o parto normal também atrapalha um relacionamento?
Essas coisas não são confessadas, ninguém diz. Mas será que não existem?
O senhor conhece algum outro geneticista, dentro ou fora do Brasil, que pensa assim, que defenda a mesma opinião?
Não. Não conheço.
Para os defensores do parto humanizado, a cesariana é um recurso para salvar vidas apenas, não um procedimento padrão. Para estas mulheres e homens, o parto deve ser protagonizado pela mãe, que pode e deve escolher como parir. Justamente como as fêmeas sobre as quais o senhor falou.
Como as fêmeas que falei? Jamais. As primatas têm filho sem ajuda. Sozinhas. A humana nunca.
Há relatos que, em muitos partos humanizados, os obstetras e as parteiras ficam nas salas e quartos apenas apoiando as gestantes, como coadjuvantes…
Isso é uma visão leiga, de certa forma, nada mais do que uma opinião, como a minha. Porque tudo que falei não é baseado em pesquisa, é simplesmente a defesa do que penso. Portanto, neste ponto, respeito o que estas mulheres pensam. Agora, considerando o que se sabe cientificamente sobre o assunto, não faz sentido. A ciência não apoia isso.
Então, se o que o senhor defende é igualmente apenas uma opinião, como a ciência apoiaria esta linha?
Dentro dos estudos de genética e evolução, que é o meu campo, existem várias observações de outros pesquisadores sobre este tema. Se você fizer um levantamento verá que os outros primatas mantêm suas funções normais e, por exemplo, não têm problemas de coluna, como os seres humanos. A posição ereta fez com que perdêssemos uma série de aptidões fisiológicas e ganhássemos outras. Entre elas, a capacidade de parir por vias normais.
Então, o pensamento do senhor é baseado na teoria da evolução, dos primatas a bípedes?
A teoria da evolução não explica o que estou dizendo, mas é um apoio. Eu posso estar errado, completamente. Mas, as minhas observações sobre a posição bípede do primata, que então passou a se chamar de homem, levam a concluir que é, no mínimo, um exagero a ênfase dada ao parto normal. Sou a favor da cesariana? Não se trata disso. Só sei que como alternativa ao parto normal, é mais humanizado. Porque preserva muito mais a criança.
O senhor acha então que no futuro a medicina vai voltar a militar pela cesariana?
Aí, temos um problema. A medicina foi criada por Hipócrates como um mecanismo de resgate, funciona da mesma maneira de um Corpo de Bombeiros. Não é o que as pessoas pensam. Não é um sistema social para tratamento de saúde. Você nunca viu em um hospital alguém preocupado com a saúde. Todo mundo só está preocupado com doença. O Ministério da Saúde só se preocupa com doença. As coisas evoluíram culturalmente para um gargalo perigosíssimo. A medicina precisa dar a volta por cima e voltar a ser ciência. As escolas mudaram e agora ninguém dá mais diagnóstico, quem diagnostica são os exames. O médico olha o paciente e pede um monte de exames, para ajudar a concluir o que você tem. O eixo foi deslocado para os laboratórios. A prática diária leva a um distanciamento da ciência.
Então, voltando à pergunta, a medicina deverá ser mais científica e, com isso, a cesárea será mais natural?
Esta palavra natural não serve para alguma coisa. Picada de cobra também é natural. Cada pessoa tem um conjunto de 26 mil genes, apenas dois mil estão associados à doença. Nossa tensão está voltada a estes dois mil, que pode dar uma ideia da quantidade de distúrbios que temos e passamos para a geração seguinte. Um destes distúrbios controlados geneticamente é o modo como a mulher tem filho. E é importantíssimo porque garante que, durante a vida do indivíduo, ele seja saudável e capaz de contribuir com a próxima geração. Você acha que o parto normal não causa uma série de sequelas na criança que ninguém nem nota, mas que causa problemas para a vida inteira?
O senhor acredita que uma criança que nasce de parto natural, vaginal, humanizado, tem menos chance de saúde que outra que nasce de cesárea?
Tem menos chances sim. O parto normal é um desastre para quem está nascendo, é o fim da picada. Vários plexos são acionados durante o parto normal, ossos passam um por cima do outro. É terrível.
Mas, será que é assim que tem de ser?
Esta é uma opinião a ser verificada. Na minha, não. Mas, posso estar errado. Em ciência não existe dogma.
O senhor tem filhos?
Professor – Sim, quatro.
E como eles nasceram? De parto normal ou cesárea?
Dois de normal e dois de cesárea.
O senhor vê alguma diferença entre eles? Não afetivamente falando, mas em saúde, por exemplo.
Não, mas teria que ter uma observação especial para afirmar isso. Mas se estivesse que escolher para meus filhos hoje, escolheria que nascessem de parto cesáreo. O parto normal é perigoso mesmo para a criança. É um sacrifício que a mulher humana faz pelo fato de andar na posição ereta.
Mães conectadas
Internet é quase uma doula
Troca de informações, dicas, indicações de profissionais, relatos de experiências. É na internet que o movimento pela humanização do parto mais se reflete. As centenas de páginas de redes de apoio ao parto humanizado e os blogs com relatos pessoais funcionam como uma espécie de primeira doula para gestantes que questionam ou buscam um alternativa ao parto hospitalar tradicional.
Foi assim com quase 100% das entrevistadas desta reportagem. De Michelle Pazin, que saiu do Amazonas para achar o Grupo da Boa Hora, no Recife. Ou a jornalista Mariana Mesquita, que não se conformou com a indicação de uma cesariana de emergência aos sete meses de gestação e também encontrou o Boa Hora. Nas grandes redes sociais, como o Orkut, também existem comunidades e dedicados ao tema com vasto material.
A web também serviu de fonte para a hoje doula Júlia Morim amadurecer a ideia de um parto domiciliar e se livrar de uma cesárea desnecessária. Atualmente, Júlia é participante ativa da rede Parto do Princípio, que serve de ponto de convergência para discussões de ativistas do parto normal e referência para troca de informações entre mulheres interessadas em parir de acordo com a forma que elas escolherem.
Muitas delas, aliás, creditam à internet o sucesso dos seus planos. Guerreiras do parto humanizado, estas mulheres se articulam em fóruns e listas de discussões diárias. Só para ajudar outras gestantes a experimentarem os prazeres do parto sem intervenções.
Sites recomendados
Instituto Nômades
http://institutonomades.blogspot.com/
Parto do Princípio
http://www.partodoprincipio.com.br/
Cais do Parto
http://caisdoparto.blogspot.com/
Espaço Ishtar
http://espacoishtar.blogspot.com/
Active Birth Centre
http://www.activebirthcenter.com/
Midwifery Today – The Heart and Science of Birth http://www.midwiferytoday.com
Editorial Obstare/Barcelona
http://www.obstare.com
GAMA – Grupo de Apoio à Maternidade Ativa - http://www.maternidadeativa.com.br
Amigas do Parto (Site)
http://www.amigasdoparto.com.br
Amigas do Parto (Ong)
http://www.amigasdoparto.org.br
Marília Largura (obstetriz, doutora e livre-docente da UFRJ) - http://www.partohumanizado.com.br
CAPPA – Childbirth and Postpartum Professional Association – http://www.cappa.net
Birthworks
http://www.birthworks.org
ABENFO – Associação Brasileira de Enfermeiras Obstétricas e Obstetrizes
http://www.abenfonacional.hpg.ig.com.br
Ishtar – Espaço para gestantes
http://espacoishtar.blogspot.com/
Dando a Luz
http://www.dandoaluz.org.ar
Doulas do Brasil
http://www.doulas.com.br
ANDO – Associação Nacional de Doulas
http://www.doulas.org.br
MaterNatura
http://www.maternatura.med.br
Casas de Parto
http://www.casasdeparto.com.br
Just the Facts
http://www.justthefacts.org/clar.asp
Michel Odent
http://www.michelodent.com
Home versus hospital birth (Cochrane Review) - http://www.cochrane.org/cochrane/revabstr/ab000352.htm
Parto Natural
http://www.partonatural.com.br
Parto Humanizado
http://www.partohumanizado.blogger.com.br
Xô Episio
http://www.xoepisio.blogger.com.br
Listas de Discussão
Parto Nosso
http://www.yahoogrupos.com.br/group/partonosso
Materna SP
http://www.yahoogrupos.com.br/group/materna_sp
Acervos
Biblioteca Virtual de Saúde Reprodutiva USP
http://www.bibcir.fsp.usp.br/html/p/quem_e_quem/bvsr/2002-v3-n4.html
Biblioteca Virtual da Mulher
http://www.prossiga.br/bvmulher/cedim
SOS Corpo – Gênero e Cidadania
http://www.soscorpo.org.br
Pediatria e aleitamento
Grupo Origem – Apoio ao Aleitamento Materno
http://www.aleitamento.org.br
IBFAN Brasil
http://www.ibfan.org.br
La Leche League International
http://www.lalecheleague.org
Amigas do Peito
http://www.amigasdopeito.org.br/
Sociedade Brasileira de Pediatria
http://www.sbp.com.br/
Jornal de Pediatria
http://www.jped.com.br/
MATRICE – Grupo de Apoio à Amamentação
http://www.matrice.blogger.com.br
Aleitamento.com
http://www.aleitamento.com/
Amamentação Online
http://www.aleitamento.org.br/
Para ler
• Memórias do Homem de Vidro – Reminiscências de um Obstetra Humanista – Ricardo Jones
• Parto Ativo – Um Guia Prático para o Parto Natural – Janet Balaskas
• Gravidez Natural – Janet Balaskas
• Saúde Natural para Mulheres Grávidas – Elizabeth Burch e Judith Sachs
• Cura Natural para Bebês e Crianças – Aviva Jill Romm
• Dar à Luz, Renascer – Lívia P.F.Rodrigues
• Quando o Corpo Consente – Marie Bertherat, Thérèse Bertherat e Paula Brung
• Mulher, Parto e Psicodrama – Vitória Pamplona
• Nasce um Bebê, Naturalmente – Naolí Vinaver
• Humanizando Nascimentos e Partos, Daphne Rattner & Belkis Trench
• Água e Sexualidade – A importância do parto ecológico – Michel Odent
• A Cientificação do Amor – Michel Odent
• O Camponês e a Parteira – Michel Odent
• Manual OMS – Assistência ao Parto Normal e Maternidade Segura
• Nascer Sorrindo – Frederick Leboyer
• Se me contassem o Parto – Frederic Leboyer
• Parto normal ou cesárea? O que toda mulher deve saber (e todo homem também) – Simone Grilo Diniz e Ana Cristina Duarte
• Do Ventre ao berço em casa – Ana Vieira Pereira
• Gentle Birth, Gentle Mothering: The best articles on gentle choices in pregnancy, birth and parenting – Sarah J Buckley MD
• Having A Baby, Naturally – Peggy O’Mara
• Natural Family Living – Peggy O’Mara
• The Attachment Parenting Book – Michael Riera, Ph.D.
• Birthing From Within – Pam England
• Our Babies, Ourselves: How Biology and Culture Shape the Way We Parent – Meredith Small